Cérebro, Um Copo que Não Transborda

0
507 views

Contradições Imperceptíveis, O Copo das Ideias e Pensamentos

As áreas da ciência que estudam o cérebro têm descoberto atividades que, se fossem mencionadas há alguns séculos, certamente seriam motivo para envio de muitos às fogueiras. Gostaríamos de discutir com nossos leitores algumas dessas atividades que, por força de lógica, acabam caindo nas questões de religiosidade.

Não pretendemos aqui usar termos técnicos neurolinguísticos ou conceitos filosóficos complexos de forma a fazer o leitor se sentir menor. Ou maior, no caso de racionalistas. Ou distante. Queremos apenas discutir. Discutir o porquê de algumas pessoas se tornarem ateias.

Por falar em evolução cerebral, convém lembrar que há teses e estudos mostrando a eficácia e importância das fábulas, historietas e contos – fictícios ou não – para o bom desenvolvimento do comportamento humano em sociedade. Assim, vamos lembrar uma experiência feita por cientistas – dizem, suecos – há algumas décadas. Alguns alegam que é fábula; outros, que é fato. Pule o trecho se você já a conhece.

Conta-se que uma equipe de estudiosos suecos colocou um grupo de cinco macacos em uma sala na qual havia uma escada. No topo desta, uma cacho de bananas. Certa e instintivamente, os indivíduos desejavam as bananas. Contudo, sempre que um deles começava a subir os degraus, os outros recebiam forte jato de água fria, dolorido. Isso ocorria diversas vezes ao dia.

Não demorou muito e os macacos associaram tentativa de apanhar bananas com a dor provocada pelos jatos de água fria. Com o passar do tempo, passaram a agredir fisicamente quem ousasse pegar as frutas. Toda vez que algum subia, apanhava. Depois de dias, nenhum deles tentou o evento e, assim que isso foi constatado, os cientistas substituíram um dos indivíduos por outro.

Certamente, o novo habitante da sala nada sabia sobre comer bananas e dor física. Subiu, apanhou a fruta e, ao descer, viu os colegas molhados a sua volta. Apanhou desmesuradamente. Quando tentou novamente, apanhou de novo. Deixou de tentar.

Outro elemento antigo foi substituído. O mesmo fato ocorreu: apanhou bananas, desceu e apanhou dos outros, que tomaram jato de água fria. Também deixou de apanhar bananas.

Outra substituição de elemento antigo por novo. Situação idem. Outra substituição. Quando o quinto e último elemento foi trocado, já não havia mais jatos de água fria. Ao longo de dois meses, todos os elementos tinham sido substituídos. Entretanto, toda vez que um elemento novo era inserido na população de macacos da sala e quisesse apanhar bananas era impedido pelos outros à base de surra.

Nenhum dos elementos sabia o motivo por que apanhava nem os outros sabia o motivo por que agrediam. O ato da agressão foi se instaurando naturalmente no comportamento dos indivíduos, passados entre eles por impressão neurológica e situacional.

A Realidade e a Experiência com os Macacos

Para entendermos mais realmente a situação acima, não é necessário lançar mão dessa experiência, seja fato ou fábula; basta observarmos as questões da tradição ou das ações culturais de uma comunidade.

Toda cultura nasce de hábitos. Aliás, “cultivar” significa justamente dar seguimento, sequência a determinada ação. Ou comportamento. Troca de beijinhos nos cumprimentos pessoais é cultura brasileira; uso de togas por parte de magistrados é cultura da parte ocidental do Planeta; mulheres de um povo asiático – chamadas mulheres girafas – se impõem uso de argola de ferro no pescoço em número que vai crescendo à medida que a criança vai crescendo também, de forma que o pescoço se alongue surpreendentemente. É cultura.

Com o passar das décadas, esses hábitos acabam se infiltrando no comportamento de todos tão fortemente que pouquíssimos se perguntam o motivo de terem se tornado hábitos. Tudo se torna tão normal, tão “dia a dia”, que é como aquele móvel que está em sua sala há anos: você sabe que ele está lá, mas não mais o percebe. Passa por ele e nem nota.

Essa atividade, a de se acostumar com determinada situação, é natural no cérebro. Vera Silvia Raad Bussab e Fernando Leite Ribeiro, ambos estudiosos da USP, dizem que, “sem dúvida, o homem se distingue dos demais seres vivos do planeta pelo seu modo de vida cultural altamente especializado, caracterizado pela transmissão de informações de geração a geração via experiência, e pelo uso da linguagem e de outras representações simbólicas” no artigo “Biologicamente Cultural”.

Parece ser uma espécie de tentativa (do cérebro) de se engajar em determinada situação que pareça real, normal, compreensível. Assim, as coisas ruins se apresentam menos tensas. Talvez essa seja a função da cultura e da tradição: fazem que tudo pareça normal.

Em outras palavras, agimos como os macacos em torno da escada com cacho de bananas: por impulso de tradição; por costumes impostos por necessidades momentâneas, mas que se repetem ao longo da vida em sociedade. Contudo, não percebemos e achamos que vivemos uma vida de realidades.

Contradições Imperceptíveis

Por conta daquela tentativa de se engajar ao normal, ou ao que pareça normal, o cérebro ainda não aprendeu a lidar com contradições. Pelo menos não o da maioria dos seres humanos. Contradições diárias são percalços que o sistema atual de comportamento humano procura apartar da realidade, em defesa da própria saúde mental.

Vivemos numa civilização de contradições, a maioria delas imperceptível.

* Poucos trabalham no que gostam; outros são empurrados ao trabalho – tanto que buscam constantemente trocá-lo

* Poucos compram o querem; outros são levados pelo marketing a comprar – tanto que encostam a maioria dos objetos que compram

* Poucos vivem como gostariam; outros são incentivados a crer que a vida é bela – tanto que poemas e filmes motivacionais fazem muito sucesso

* A música que você ouve talvez não seja a que aprecie – tanto que é possível que não lembre a letra de sua canção favorita

* O pensamento que atua em sua cabeça talvez não fundamente sua própria vida – tanto que você já passou por diversos tipos de conflitos

* Saímos de casa no fim de semana, na hora do almoço, para degustar comida caseira

* Paramos diante da TV para bisbilhotar a vida de terceiros – postura que mais criticamos nos outros

* Rimos às bandeiras despregadas ao ver aquela postagem de gente feia nas redes sociais, mas admiramos aquelas que enaltecem o respeito ao semelhante

* Nossa autoestima vai às alturas com o número de likes de nossas postagens, mas não nos surpreendemos por não conseguir nos fazer entender pela pessoa próxima a nós

O Copo das Ideias e Pensamentos

Vimos acima que cultura e tradição são produto da persistência de ações de comunidades que se fortalece ao longo do tempo. O cérebro se adapta à necessidade de participar desse produto na coletividade. Essa necessidade tem tamanha consistência que acaba assumindo o fato de que, sem o produto, o próprio cérebro se perde na convivência.

Por outro lado e ao mesmo tempo, cérebro parece um poço sem fundo. É possível alargar sua capacidade de assimilação com exercícios diários de crítica e autocrítica. Questionar sempre, ainda que o ponto questionado esteja repleto de motivos e razões, especialmente no campo de conceitos humanos. As próprias ciências exatas admitem questionamentos, que se dirá das humanas?!

Imagine: apanhe uma jarra com água. Despeje-a de supetão dentro de um copo comum. Você verá que, agindo assim… de súbito… o copo nunca se enche completamente e a água sempre se derrama. Agora, incline a jarra lentamente em direção ao copo e vá despejando lentamente o máximo que conseguir.

Se olhar em paralelo à borda do copo, notará que o nível da água ultrapassa o limite do recipiente, formando uma linha côncava para baixo. Deixe o copo ao sol por uma semana. Perceberá que há mais espaço para água. Despeje novamente até o limite da borda. Repita o exercício.

Em um ano, terá conseguido colocar toda a água da jarra dentro do copo. Assim é o cérebro.

Vamos discutir mais na continuação deste texto nos próximos dias?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your name here
Please enter your comment!